sábado, 12 de maio de 2012

Sobre O Caminho [i]

Há já algum tempo que queria escrever sobre uma das experiências que fez com que eu hoje em dia seja da forma que sou. É daquelas experiências que transformou a forma de pensar a minha vida e os que me rodeiam. Não são muitas as pessoas que sabem da sua existência, pelo menos de uma forma detalhada: ela é extensa e acaba por ser inglório tentar contá-la porque penso sempre que ninguém a compreende realmente.
Neste espaço não tenho esse problema: sou eu a escrever e, quanto muito, um ou dois leitores disponíveis para a ler. Assim sendo, se estes optarem por ler o que aqui está escrito a responsabilidade é exclusivamente sua, assim como a liberdade de deixarem de o ler.
Devo alertar que, embora o que aqui possa ser descrito pareça pouco verosímil, acentuando o facto de já terem passado alguns anos e os detalhes estarem já esquecidos, nas linhas [e posts] que se seguem não haverá nada que não reflita a verdade.


Santiago de Compostela, fevereiro de 2005

 Depois de um processo complexo (nada semelhante ao que acontece atualmente) fui selecionada para o Programa de mobilidade de Estudantes Erasmus na Universidade de Filologia da Universidade de Santiago de Compostela.
Em fevereiro de 2005 começava aquele que eu esperava (e tinha a plena convicção que assim teria que ser) que fosse o meu último semestre como estudante. Os receios eram muitos mas as expectativas também.  
O meu percurso académico em Santiago foi excecionalmente trabalhoso: era de bom grado que frequentava a biblioteca da cidade aberta 24 horas por dia em época de exames. Achava fantástico estar cheia a altas horas da manhã e ter, ainda por cima, pessoas aparentemente empenhadas no estudo. Aconteceu mais do que uma vez, ir até lá só para ver o "ambiente" depois de sair de um qualquer "mesón". Não faltava a nenhuma aula, tirava apontamentos até me doerem as mãos, fazia repetidamente exercícios de linguística espanhola, pesquisava insistentemente sobre bibliografia para o meu seminário de final de licenciatura.
Mas o meu percurso académico em Santiago não foi só estudar. As festas Erasmus eram uma constante por toda a cidade. Os finais de tarde num "mesón" acompanhados por um copo de vinho e uma tapa de presunto e queijo (não tínhamos dinheiro para grandes luxos!), jantares típicos de partilha do que de melhor tem Portugal, Polónia, República Checa e Suiça, passeios pela cidade ao amanhecer...
Foram sem qualquer tipo de dúvida momentos fantásticos os que passámos ao longo dos seis meses. Quando a nossa estadia estava a chegar ao fim um dos simpáticos polacos fez-nos (aos sete) uma proposta: fazer o único Caminho de Santiago que em vez de chegar à cidade de Santiago de Compostela (como acontece aliás com quase todos), sai dessa cidade e chega à aldeia de Muxia na Costa da Morte (deve o seu nome à quantidade de rochas que e que é/foi motivadora de vários naufrágios). Por uma questão de timming, o querido polaco cujo nome nem sequer tento escrever sugeriu que fizéssemos o caminho ao contrário uma vez que dizia-se que as paisagens mais bonitas eram as que iriamos encontrar em Muxia/Finisterra.
Neste momento, o motivo que nos levava a fazer o Caminho era pura e simplesmente turístico quando, na credencial que posteriormente arranjámos, vinha escrito que o único motivo pelo qual se deve fazer é o religioso.
Em três dias arranjámos o que era (ou o que pensávamos que era) necessário: a credencial que nos certificava como peregrinos, uma mochila com [pouca] roupa, alguma comida e um saco-cama.

quarta-feira, 9 de maio de 2012

Sobre acreditar.

Há uns dias encontrei este excerto numa conhecida página de citações, pensamentos, poemas, provérbios. O que me chamou a atenção foi o seu título "cada dia é sempre diferente dos outros" porque no contexto do meu trabalho esse é um dos argumentos optimistas para a minha motivação profissional, aparentemente tão estranha para alguns que me rodeiam.
O mais curioso é que embora se refiram a contextos diferentes, há palavras que entre a minha motivação e ele [o texto] se interrelacionam: [deixar de] Aprender. Memória[s]. [deixar de] Acreditar.
Cada dia [dos meus] é sempre diferente dos outros porque não equaciono deixar de aprender, porque não penso voltar atrás e pedir explicações, porque em cada dia há respostas para encontrar, há situações para esclarecer, há um caminho a seguir, há memórias para recordar, lugares para conhecer, lições para aprender, momentos para passar, sorrisos para partilhar, pequenas sementes para regar, frutos para colher. Porque há, enfim, valores nos quais vale a pena acreditar.
Cada dia é sempre diferente dos outros porque é o meu dia, porque não terei oportunidade de o viver duas vezes mesmo quando, como diz o excerto "se faz aquilo que já se fez".

 
Cada Dia é Sempre Diferente dos Outros

Cada dia é sempre diferente dos outros, mesmo quando se faz aquilo que já se fez. Porque nós somos sempre diferentes todos os dias, estamos sempre a crescer e a saber cada vez mais, mesmo quando percebemos que aquilo em que acreditávamos não era certo e nos parece que voltámos atrás. Nunca voltamos atrás. Não se pode voltar atrás, não se pode deixar de crescer sempre, não se pode não aprender. Somos obrigados a isso todos os dias. Mesmo que, às vezes, esqueçamos muito daquilo que aprendemos antes. Mas, ainda assim, quando percebemos que esquecemos, lembramo-nos e, por isso, nunca é exactamente igual.
— Porquê, pai?
— Porque a memória não deixa que seja igual, mesmo que seja uma memória muito vaga, mesmo que seja só assim uma espécie de sensação muito vaga. É que a memória não é sempre aquilo que gostaríamos que fosse. Grande parte dos nossos problemas estão na memória volúvel que possuímos. Aquilo que é hoje uma verdade absoluta, amanhã pode não ter nenhum valor. Porque nos esquecemos, filho. Esquecemos muito daquilo que aprendemos. E cansamo-nos. E quando estamos cansados, deixamos de aprender. Queremos não aprender por vontade. Essa é a nossa maneira de resistir, mais ou menos, àquilo que nos custa entender. E aquilo que nos custa entender pode ter muitas formas, pode chegar de muitos lugares.
— Porquê, pai?
— Porque nos parece que é assim. Mas talvez não seja assim. Aquilo que nos custa entender é sempre uma surpresa que nos contradiz. Então, procuramos convencer-nos das mais diversas maneiras, encontramos as respostas mais elaboradas e incríveis para as perguntas mais simples. E acreditamos mesmo nelas, queremos mesmo acreditar nelas e somos capazes. Somos mesmo capazes. Não imaginas aquilo em que somos capazes de acreditar.
— Porquê, pai?
— Porque temos de sobreviver. Porque, à noite, a esta hora, temos de encontrar força para conseguirmos dormir, descansar, e temos de acreditar que no dia seguinte poderemos acordar na vida que quisemos, que desejámos. Temos de acreditar que poderemos acordar na vida que conseguimos construir e que essa vida tem valor, vale a pena. Muito mais difícil do que esse esforço é considerarmos que fomos incapazes, que não conseguimos melhor, que a culpa foi nossa, toda e exclusiva.


José Luís Peixoto, in 'Abraço'


domingo, 6 de maio de 2012

Sobre "Ficar sem palavras"

Não deixa de ser uma expressão curiosa: "Ficar sem palavras".
Hoje dei por mim a pensar nesta expressão e no seu significado. Ela normalmente é utilizada quando algo nos apanha de surpresa e na realidade não sabemos bem o que dizer/como reagir. Na verdade, "ficar sem palavras" acaba por ser uma boa escapadela ao dizermos exatamente o que sentimos, sem o pré-aviso da razão ou do pensamento minucioso.
É verdade que algumas vezes já fiquei "sem palavras" mas normalmente aquela sensação de euforia, sentimento de gratidão, bem-estar ou felicidade que sinto vêm, no meu caso, acompanhados de uma natural tendência para expressar repetidamente o que sinto.
Gosto quando acontece porque, sabe quem me conhece, não sou rapariga para grandes elogios e menos o faço de uma forma gratuita e portanto, para mim, são sempre momentos em que sinto que me exponho.
Este fim de semana em terras scalabitanas deu-me a oportunidade de sentir todos aqueles sentimentos a que já fiz referência e muitos outros, dos pequenos e simples que enchem o coração. Quando regresso de convívios como o que aconteceu este fim de semana não posso deixar de pensar no poder da amizade, da partilha e cumplicidade, da entreajuda, da boa disposição, do inter e intra conhecimento, no espírito de superação, na dedicação, no sorriso quente à chegada, no abraço sentido na despedida.
Fazendo uma breve comparação, diz-se que o ato de leitura é tanto mais produtivo quanto mais robusta for a bagagem literária que temos. De certa forma: quanto mais leio, mais competências literárias, linguísticas, imaginativas, cognitivas vou ter para entender leituras futuras.
Quando penso no meu papel no seio do grupo (de um grupo especial de corrida a que orgulhosamente pertenço!), quando, em momentos que seguem estes fins de semana completamente e cada vez mais familiares, penso que o exemplo da leitura acontece exatamente aqui: quanto mais partilho, mais conheço outras realidades, quanto mais me aproximo do "diferente" de mim, mais respeito, mais sinto vontade de regressar, mais elogio, mais confortável me sinto, mais confio, mais me identifico, mais aprendo.

Parabéns Tuna Feminina Scalabitana. Obrigada às cúmplices de aventuras FFerventis.



domingo, 22 de janeiro de 2012

Sobre a Revelação.

Desde outubro que todas as semanas nos encontramos pelo menos duas vezes num espaço educativo muito agradável perto do centro da cidade. Desde cedo criámos, parece-me, uma gentil empatia e o seu esforço e determinação têm sido ingredientes extraordinários para a consecução dos objetivos que ambas estipulados.
Ocupamos a sala "Jacques Cousteau" de cor azul e com uma tartaruga gigante na parede acompanhada de uma citação do mesmo "Os que decidem sobre o amanhã devem avaliar o impacto no futuro.".
A simpatia e timidez revelam-se num sorriso aberto a cada minuto dos nossos encontros. Seja qual for o desafio ela aceita sem contestar as minhas opções. 
Esta adolescente de ideias firmes, de quem sabe o que quer mas, principalmente, o que não quer para o seu futuro, sorria-me em mais um encontro semanal. Pedi-lhe para me contar algum episódio da sua vida no país onde passou 9 anos da sua vida. (Tinha-me avisado que não se sentia muito bem e que estava um bocado nervosa embora não entendesse porquê e eu achei que falar a poderia ajudar a esquecer o que quer que se passava.)
Assim me pareceu que estava a acontecer: o seu entusiasmo via-se em cada palavra e, por momentos, pensei realmente que as nuvens estavam dissipadas.
Entre recordações e correções o meu interlocutor cala-se e baixa os seus olhos já carregados de lágrimas. Fico em silêncio. Diz-me, então, "Fui discriminada, maltatratavam-me e tiravam-me o meu lanche no recreo. Fui vítima de bullying." O seu rosto voltou a baixar e eu fui na sua direção e abracei-a. O que se seguiu não interessa particularmente. O que interessa, o que não vou esquecer é que esta adolescente sofreu no silêncio durante anos, não esqueço o seu semblante nem o seu sorriso quando voltou a levantar a cabeça!

"A força não provém da capacidade física e sim de uma vontade indomável."
Mahatma Gandhi

 


sexta-feira, 30 de dezembro de 2011

Sobre a Vontade


Estamos a um escasso dia do final do ano. Não vou fazer a tradicional retrospetiva (ou pelo menos não a vou fazer hoje, fique o leitor descansado!) mas antes deixo aqui escrito neste último comentário do ano algumas palavras de incentivo para aquele (ano) que não tarda está a entrar.
Este texto escrito por Will Durant é dedicado a todos os que este ano, mas essencialmente no próximo, não se deixam ir por comodismos; aos que arregaçam as mangas e deitam mãos ao trabalho; aos que não fogem de um bom desafio; aos que estão aqui ao lado para um abraço ou uma palavra; aos que não vão em futilidades e aparências.  


"A Prática Fomenta a Vontade


 Se desejamos tornar-nos fortes, temos, primeiro, de comprender o que é a vontade. A vontade não é nenhuma entidade mística, que presida aos outros elementos do carácter, qual mestre de banda - sim, a soma, a substância de todos os nossos impulsos e disposições. Essa energia formadora do carácter não tem senhor a quem obedeça além de si própria; e é graças a ela que algum poderoso impulso pode vir a dominar e unificar o complexo. Isto forma a «força de vontade» - um supremo desejo que se ergue acima dos mais para arrastá-los num mesmo sentido ou para uma dada meta. Se não descobrimos essa meta não alcançaremos a unidade - e seremos simples pedra de que outro homem se utiliza nas suas construções.

Vem daí a inutilidade da leitura de livros que apontam as estradas reais do carácter. Tenho diante de mim um volume de um tal Leland (Londres, 1912), intitulado Tendes a Vontade Forte? ou Como Desenvolver Qualquer Faculdade do Espírito pelo Fácil Processo do Auto-Hipnotismo. Existem centenas destas obras-primas ao alcance dos simplórios de todas as cidades. Mas o caminho é mais penoso e longo.

Esse caminho é o caminho da vida. Vontade, isto é, desejo unificado (Schopenhauer já o provou), constitui a forma característica da vida que cresce; e a sua força só aumenta quando a vida lhe defronta novos labores e novas vitórias. Se desejamos ser fortes, devemos, antes de mais nada, escolher o nosso objectivo; em seguida, avançar, aconteça o que acontecer. A prudência aqui reduz-se a conduzir o empreendimento por partes, porque cada passo em falso enfraquecer-nos-à, do mesmo modo que cada vitória parcial nos fortalecerá. A realização cria mais realizações; graças a pequenas conquistas ganhamos confiança para as grandes; a prática fomenta a vontade.


Will Durant, in "Filosofia da Vida"