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terça-feira, 25 de junho de 2024

Sobre Correr

[ou a arte de viver]

Num dos treinos das últimas semanas dei por mim a pensar em como correr se pode tornar uma metáfora da forma como decidimos viver.
O tema não é novo. Não é inédito. 
Correr é terapêutico. É empoderador. É a luta constante do isto não é para mim com o eu sou capaz
Nem sempre a passagem de  isto não é para mim ao  eu sou capaz é pacífica. Aliás, sabemos que não o é. 
Qualquer passagem, qualquer desafio com o qual nos enfrentemos é sempre conturbado, exigente e desesperante no seu início. Tremendamente compensador e reconfortante no fim. Tudo depende da forma como decidimos abraçar as diferentes fases do processo. 

Atualmente, considero-me uma corredora assídua, mas nem sempre esta assiduidade se revela de uma forma colaborativa. Nem sempre é espontânea ou agradável. Não. 
Se algumas vezes é leveza, é foco, é entusiasmo e desafio. Outras é puramente mecânico. É um número: de quilómetros, de ritmo, de altimetria, de dias (que faltam para a próxima prova). Outras ainda é desalento, desaire, desassossego. 
É uma e outra coisa. Nenhuma delas se exclui. 
É uma montanha russa de pensamentos e de sensações. O [meu] treinador pede-me que oiça o corpo, mais do que os pensamentos. É um trabalho árduo. 
Ouvir o corpo pode ajudar a estar mais presente no aqui e no agora e a ser mais objetivo, principalmente quando os pensamentos insistem em contrariar as sensações do corpo, mas estar focado no motivo que me levou a correr e a estar num processo de treino [acompanhado] é essencial para fazer o treino resultar.

Se deixar por um momento de pensar em corrida, pode adaptar isto a qualquer aspeto da sua vida. 
Não sei se correr é para todos, mas viver é, embora nem todas as pessoas o façam. O caminho nunca vai ser fácil. Pode decidir tornar-se mais forte e preparar-se ou pode desculpar-se com as condições (as que controla e as outras que não controla).  

Pode parecer irónico, mas sei exatamente do que falo. Sei porque num maior ou menos grau passo por isso. O trabalho nunca está finalizado. Nunca se está sempre motivado. O êxito [e o fracasso] são voláteis. 

Se eu poderia viver sem correr?
Podia, mas não seria a mesma coisa.

domingo, 17 de setembro de 2023

Sobre "Ir com tudo"!

 Nada te pode parar.

Nada!
No início de mais um ano letivo, deixo aqui aquilo que, na minha opinião como profissional (dentro e fora da sala de aula), mais contribui para o #sucesso (seja lá o que signifique para cada um de nós)
1 - acreditar firmemente mas suas capacidades e/ou na capacidade que tem para mudar a sua situação: definir um plano ou pedir ajuda.
2 - se quero algo diferente (e isto só acontece se experimentarmos outras opções e caminhos e errarmos), há necessariamente algo diferente que posso fazer para mudar isso.
3 - para fazer algo diferente (e muitas vezes assustador dentro do que conheço e me é familiar) é preciso arriscar. Fazer algo pela primeira vez. Pedir ajuda. Assumir que me enganei. Abraçar a mudança ou agarrar uma oportunidade.
4 - os outros. Não vivemos isolados. Na escola, no trabalho
, nas interações sociais. Parte do sucesso também está na ajuda ao outro. Como posso servir e, quem sabe, colocar os meus dons/talentos ao seu serviço. Uma palavra. Um gesto. Um abraço ou um sorriso.
5 - exercício. Movimento de corpo e mente. É fundamental para um melhor equilíbrio quando os desafios chegam.
6 - ser positivo e otimista. Mas principalmente ser realista. Permite-te sentir o que é suposto sentir, sem esconder. No entanto, foca-te na solução e na capacidade de mudar a situação.
Um ótimo ano letivo a tod@s!
Que seja um ano extraordinário e cheio de aprendizagens!
Um post com a inspiração de Nicola Cafés

terça-feira, 24 de maio de 2022

Sobre a Coragem

 Ao N. por ser corajoso todos os dias e por me inspirar a sê-lo também, não obstante a nossa recente amizade. Obrigada!

co·ra·gem 


(francês courage)
nome feminino

1. Firmeza de ânimo ante o perigoos revesesos sofrimentos. = INTREPIDEZOUSADIA ≠ COVARDIA

2. [Figurado]  Constânciaperseverança (com que se prossegue no que é difícil de conseguir).

interjeição

3. Exclamação usada para animar ou incentivar (ex.: coragemvai correr tudo bem!).


"coragem", in Dicionário Priberam da Língua Portuguesa [em linha], 2008-2021, https://dicionario.priberam.org/coragem [consultado em 24-05-2022].


Começa. Faz. Age. Desafia-te. 

Escrevo-o aqui, caro Leitor, mas nos últimos meses tenho-o repetido para mim própria como um mantra diário. Quando o repito sinto-me impelida a agir. Fazer com que realmente aconteça, independentemente das circunstâncias, do desafio, do grau mais ou menos possível ou impossível da sua concretização.

De todas as aprendizagens que tenho adquirido ao longo dos últimos meses, uma das mais importantes e que mais impacto tem tido na minha vida é a importância de me permitir ser corajosa. A coragem permite-nos fazer o que ainda não foi feito. Acreditar no que mais ninguém acredita. Estar determinado em fazer algo. 

A coragem. Os pequenos atos de coragem transformam. Transformam-nos: a nossa forma de ser, de pensar, sentir e agir. Transformam o nosso mundo e, confirmo-o todos os dias, o mundo dos outros. 

A grandiosidade de ser corajoso começa com o mais pequeno e simples dos passos: querer sê-lo.

Eu quero. E todos os dias trabalho para o ser. Pouco a pouco. Paulatinamente. De ação em ação. De feedback em feedback. Aproveitando cada oportunidade para adquirir experiência neste campo. 
Imagine poder dizer que é um/a especialista em ser corajoso/a? Não seria maravilhoso?

Se tiver agora alguns minutos, peço-lhe que responda honestamente à seguinte questão: 
Já alguma vez quis ter coragem?

Coragem para recomeçar. Para olhar para um desafio sob outro ponto de vista ou perspetiva. 
Coragem para ter aquela conversa. Ir ao ginásio. Começar a cuidar de si. Levantar-se cedo. Conversar com aquela pessoa que o entusiasma ou por quem se sente atraído/a.
Coragem para deixar a porta aberta, depois de lhe terem partido o coração. De continuar depois de muitos "Não". Coragem para dizer o que pensa. Para fazer aquela viagem, mudar de emprego ou elogiar aquela pessoa.

Coragem para ser melhor. Para pensar em grande e definir objetivos muito além do razoável (tão além que pouca gente acredita ser possível). Coragem para confiar em si ou para pedir ajuda.
Coragem para ser o/a primeiro/a a fazer algo ou para decidir, de uma vez por todas, não fazer.
Coragem para se responsabilizar pelos seus resultados e mudar o seu discurso interior.

Coragem para ser imperfeito. Coragem para ter coragem. 

Deixe a coragem fora da lista de objetivos a longo prazo. Decida hoje que quer ser corajoso. Decida impregnar a sua vida de pequenas ações corajosas todos os dias. Decida hoje e faça-o: com o seu marido ou com a sua esposa. Com os seus filhos, sogros ou irmãos. Com o chefe ou com os seus colaboradores. Com os seus clientes, pacientes ou alunos/as. Em definitiva, decida sê-lo por si. 

E se está indeciso/a por onde começar, dou-lhe uma pista e peço-lhe que responda a mais uma pergunta (hoje é a última, prometo!):
"O que é que vale a pena fazer mesmo que falhe?" 

A resposta, caso exista, é a base da sua próxima ação. Não olhe para trás. Não pense duas vezes: faça-o. Seja corajoso e partilhe-o com as outras pessoas. 

Seja corajoso mesmo quando, ou principalmente quando, não tem motivos para o ser. 

domingo, 20 de março de 2022

Sobre perspetiva(s)

Um dos meus objetivos de 2021 era voltar a partilhar a minha escrita. 
Os meses passaram-se e outros objetivos foram sendo concretizados e a escrita (partilhada/oferecida) foi sendo deixada para trás. Por considerar que ainda não era o momento. Por pensar que o texto não estava suficientemente bom para ser lido. Por achar que a mensagem não era exatamente aquela que eu queria partilhar. Por não ter tempo. Por não ter disponibilidade anímica. Por não ter energia. Por não ter entusiasmo. Por não-sei-quantos-outros-motivos. 

Passei grande parte da segunda metade de 2021 com a intenção de voltar a este espaço e redecorá-lo. Passei 2021 sem o fazer. 
Não é algo que me orgulhe, mas talvez agora, como em tudo na vida, perceba que há um motivo para que o seu (ou o meu!) reaparecimento seja feito agora. 
Chega 2022 e a certeza que será um ano de muita ação. De resultados. De levar para a frente. De #fazeracontecer, como aliás a minha querida Madalena Quiala (procurem-na nas redes, ela é um furacao. Uma autêntica força da natureza que tive a honra e o prazer de conhecer e sobre quem, quase de certeza, voltarei a escrever neste espaço) também tantas vezes diz. 

E eis que chega mais uma fase desta minha casa. The coach Lab - writing notes é um reformulado espaço de partilha de aprendizagens que durante todos estes anos fui fazendo. Pelo menos é minha intenção que assim seja. Não quero fazer publicidade pouco honesta, mas trabalharei para isso!
 Não é por acaso que a última entrada do blogue é sobre ganhar ou perder. Sobre conseguir alcançar um objetivo. Um texto extraordinário num dos anos mais produtivos e desafiantes que vivi. Um ano cheio de experiências, cheio de momentos de inspiração, desafio e superação. Num determinado momento desse ano coloquei-me a seguinte pergunta: 

Inês, se deixasses de poder fazer o que fazes. Se deixasses de poder estar com as pessoas que gostas. Se deixasses de poder praticar desporto. Se deixasses de poder trabalhar. Se deixasses de poder levar a vida que levas, o que é que levarias dessa experiência? O que é que contarias sobre esses tempos. 

A resposta foi dada através de ações. Nunca antes tive tantas experiências. Nunca antes me desafiei tanto. Nunca antes disse tanto o que sentia. Nunca antes fiz tanto o que me apetecia. 

Depois disso, bem... parece que a vida tem sempre para nós os desafios para os quais precisamos de desenvolver competências. De sermos melhores pessoas. De nos respeitarmos mais. De dizer mais vezes não. 
 E penso que este interregno de cinco anos acaba por refletir isso. 

Isto tudo para vos dizer que estou de volta. A mesma casa. Perspetivas e experiências diferentes. A mesma emoção (e cuidado) na partilha e nas palavras. 

Por agora é tudo...mas regresso para vos contar mais novidades sobre este novo projeto! 

Obrigada por se manterem aí (os antigos e os novos que certamente me visitarão!) 

Até breve!

sábado, 6 de maio de 2017

Sobre Perder ou ganhar...

Esta entrada vem no seguimento de meses de treinos e aprendizagens extraordinárias em diversas áreas da minha vida. O e-mail que a seguir transcrevo, foi enviado dia 18 de março, na véspera de concretizar um dos meus objetivos desportivos para 2017: participar na Meia Maratona de Lisboa. O objetivo foi alcançado mas a lição que retirei desses meses de trabalho e das semanas que lhe seguiram continua muito presente. Partilho-a neste meu "regresso" à escrita.



.. não é [só] desporto.
 
Caro F,
Talvez não saibas mas algures no último trimestre do ano deste-me uma lição tremenda. Eu na altura já achei que teria de refletir mais sobre a tua versão da máxima do "Perder ou ganhar é (tem de ser) desporto.". Quando regressava a casa pensei: "como é que eu, que detesto banalizar/vulgarizar palavras/expressões nunca me tinha lembrado de esmiuçar e compreender verdadeiramente esta? "A verdade é que tenho pensado nela frequentemente desde essa altura. Realmente, de acordo com a tua perspetiva, não é indiferente ganhar ou perder. Se me envolvo em algo, se trabalho para concretizar um objetivo, se me empenho e dedico então eu quero ganhar e isto é, no mínimo o que eu posso querer! (E aqui residiu a minha maior descoberta - é legítimo eu querer ganhar.) Isto é o Desporto: é eu ser fiel ao meu trabalho e não menosprezar a minha ambição (numa perspetiva de desafio pessoal, entenda-se!) e querer realizar com todas as minhas forças o meu objetivo. Até aqui, creio que, pelo menos na globalidade, estarás de acordo comigo. Mas continua a haver uma questão: se o ganhar eu já sei o que é. O que é perder? Nas últimas duas semanas tenho pensado nesta questão. Perder será, mantendo uma coerência sobre o que disse em relação ao ganhar, não ganhar. Perder será não concretizar a 100% um objetivo. Perder será arranjar argumentos que sustentem ideias e suposições dos outros. Perder será não tentar. Perder será querer ganhar a todo o custo. Perder será não retirar uma lição do não ganhar. Penso que me fico por aqui. Queria partilhar contigo este pensamento e agradecer-te pela nossa conversa, por me teres dado uma nova perspetiva, por me teres feito pensar e reformular a visão que tinha em relação à expressão.  Realmente, perder ou ganhar não é indiferente. É um argumento que usamos para justificar ou desculpabilizar o facto de não termos conseguido gerir (seja lá por que motivo for) o nosso querer ganhar. 
 Vou dormir que amanhã o dia é longo e (dizem!) há 21 quilómetros para correr na capital. 


Termino esta entrada com uma frase do atleta Jesse Owens  com a qual me identifico profundamente: "No fim, é o esforço extra que separa o primeiro do segundo lugar. É preciso desejo, determinação, disciplina e sacrifício. Se juntarmos tudo, mesmo se não ganharmos, é impossível perder." 

quinta-feira, 4 de maio de 2017

Considerações sobre Liderança

Como nos inspira quem nos rodeia?
Como inspiramos os que nos rodeiam?
Que líderes somos? 

A reflexão que a seguir apresento foi inserida num trabalho do Módulo 6: Liderança e Comunicação, no âmbito da pós-graduação em Coaching
É uma visão muito pessoal, sustentada com leituras sobre a temática, sobre  Liderança e do que é ser e agir como líder.

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Ser ou não ser líder é a questão!

Uma questão em tom de desafio como pressupõe o processo de desenvolvimento e crescimento pessoal que desde outubro assumi. Um processo cuja palavra central, muito repetida no meu discurso nos últimos meses, é Consciência.
Uma Consciência que implica o que sou (comigo e com os outros), como sou (comigo e com os outros) e como me vejo (a mim e aos outros). E é nesta vertiginosa e fantástica procura que está contextualizada esta reflexão: ela é o resultado de um processo num estado eternamente por terminar.
Na verdade, ela também surge depois de meses de troca de experiências, conhecimentos, leituras, pesquisas e, sobretudo, reflexões muito pessoais sobre o EU e as variáveis que anteriormente referi.
Pela mão do professor Paulo Abrantes navegámos pelo tema da Comunicação e Liderança. A sua experiência por outras tormentas, fê-lo marinheiro experiente e astuto e neste sentido fez questão de nos dotar de confiança para que, juntos, chegássemos a porto seguro. Juntos e com uma constante preocupação em relação ao nosso bem-estar: à forma como estávamos a percecionar e a utilizar a informação que nos estava a ser transmitida. Embora sem me dar conta nesta altura estava a dar-nos uma lição, ele próprio e a sua conduta, de Liderança.
Em primeiro lugar, deixei cair a ideia de que Liderar/a Liderança estava apenas confinada aos CEO de empresas. Creio que o conceito de Liderança para mim estava associado ao sucesso e à visibilidade. Com sinceridade, não tinha até ao momento tido necessidade de pensar sobre isso: como se fosse uma característica que não estivesse ao meu alcance.
É então que nesta pequena mas muito gratificante viagem descubro que a Liderança está acessível a todos que ousem conhecer-se, que ousem conhecer quem os rodeia, que não receiem reconhecer o(s) seu(s) erro(s), que ajam com humildade, que tenham uma forma de estar/agir pelo qual sejam reconhecidos, a sua imagem de marca.
O líder é alguém original, que tem coragem para ser e fazer diferente. O líder não teme a grandeza dos que o rodeiam porque tem confiança em si próprio e porque a sua verdadeira felicidade também passa por fazer com que o melhor de quem o rodeia se eleve, sobressaia. O líder é o que predica e é sobretudo quem faz o predica.
[…]
Ainda durante este processo também recordei e sobretudo refleti que um dos argumentos que uso para justificar a minha prática profissional é o facto de acreditar que, em algum momento posso fazer a diferença na vida das crianças/adolescentes com quem trabalho. Assim sendo, será que faço realmente? Porque é que é isso que me preenche enquanto profissional? Em que é que se traduz na minha prática “fazer a diferença”? Quando é que senti isso? Como me senti?
Foram algumas perguntas que me coloquei a mim mesma. Para algumas terei resposta, ou uma resposta à luz da minha perspetiva atual.
Termino esta reflexão com a alusão a dois textos com os quais estabeleci contacto há relativamente pouco tempo e que considero que influenciaram de sobremaneira o meu entendimento sobre o que me rodeia. Partilho-os aqui porque penso que estão dentro do âmbito deste trabalho e desta reflexão.
Há uns meses comprei um livro com o título Os melhores contos espirituais do Oriente de Ramiro Calle. No título aparecem duas palavras que chamaram imediatamente a minha atenção [contos e Oriente] e comprei-o. Nas suas páginas fui lendo pequenos contos de índole espiritual e com uma profundidade, confesso, nem sempre acessível. Houve um que fixou imediatamente, e desde esse momento constantemente no meu dia-a-dia, a atenção e que pela sua pequena dimensão gráfica passo a transcrever:

 A Ação Destra
“Dois homens encontravam-se de visita à casa de um mestre, e um perguntou ao outro:
- Vieste, como eu, para ouvir os seus ensinamentos?
E o outro respondeu:                                 
- Não, para mim é suficiente ver como aperta as sandálias.”

Um líder é um exemplo na sua forma de agir. Quantas pessoas conhecemos assim? Quem são elas? Porque nos inspiram? Qual é o seu exemplo?
A segunda alusão é o poema IF de Rudyard Kipling. Em primeiro lugar o poema é lindíssimo e de uma profundidade tão verosímil que se poderia tornar o lema de vida de um líder. Todas as várias situações descritas fazem parte do que é ser Homem, estão ao alcance de todos. A diferença, e é aí que encontramos um verdadeiro líder, é a forma como lidamos com elas, como decidimos sentir-nos ao passarmos por elas e as lições que delas retiramos para os desafios de todos os dias.
Ser líder está ao alcance de todos nós. Todos nós somos líderes, exercemos liderança nos mais diversos meios em que nos relacionamos.

Ser líder é ousar. É arriscar. É ter coragem para ser e fazer diferente e, ainda assim, manter-se fiel aos seus valores. 

quinta-feira, 2 de abril de 2015

Sobre a ausência

Fazes-me falta. 

Fazes-me falta mesmo quando estás perto de mim.
Não te confesso mas procuro em ti tudo aquilo que já foste para mim. 
Tudo o que já me deste. Tudo o que no seu tempo não valorizei. 
Todos os elogios que calei.
Fazes-me falta. Porque já não és tu e eu também já não sou eu.
Fazes-me falta mesmo quando dizes que gostas de mim, que sou importante para ti.
Não te zangues comigo mas, nas noites em que os fantasmas me visitam, pergunto-me se realmente assim é. Ainda és genuinamente capaz?

Fazes-me falta mas não cales quando for imperioso que fales a Verdade.

Fazes-me falta mesmo e principalmente quando estás perto de mim.

sábado, 19 de janeiro de 2013

Sobre o Caminho: Considerações Finais


As repercussões físicas e anímicas desta viagem ainda hoje se fazem notar. Fisicamente, estive um mês com dores musculares. Os meus pés e joelhos nunca mais foram os mesmos e embora continue a fazer as minhas caminhadas de fim de semana e a praticar desporto, "eles" chamam-me à atenção quando o esforço é demasiado.
Não é possível descrever o alcance desta viagem na minha vida. Meses mais tarde escrevi a uma amiga a contar algumas coisas e disse-lhe algo semelhante a isto: "Não vais acreditar mas fiz o Caminho de Santiago. Mais tarde conto-te os detalhes desta extraordinária viagem mas, por agora, digo-te que este Caminho que há meses deixei e que me parece ter sido ontem que entrei no Obradoiro, é a metáfora de uma vida." Uma vida, digo hoje, com lágrimas e obstáculos para ultrapassar, uma vida em que os amigos fazem realmente toda a diferença. Uma vida em que a adversidade da chuva miudinha pode levar-nos tanto ao desespero como fazer com que esta se  torne um motivo para caminhar mais depressa. O Caminho (ou será a vida?) faz-nos pensar com cautela, seguir em frente quando não há forma de voltar para trás. Mesmo quando a floresta se adensava sobre nós havia uma beleza nessa imensidão que nos fazia esquecer o medo e a incerteza. Depressa aparecia o riacho para nos refrescarmos ou um galego simpático que nos oferecia abrigo da chuva que gentilmente recusávamos porque não podíamos perder de vista o nosso objetivo, mesmo que nos apetecesse parar, mais hora menos hora, com mais ou menos chuva, teríamos que lá chegar.
O Caminho fez-me reencontrar com os meus verdadeiros valores através de uma lição de e para a vida.

Eu encontrei-me no Caminho e, sem poder voltar para trás, segui em frente. Dessa vez e em todas as outras.

Sobre o Caminho [v]


Dia 4.

Negreira - Santiago de Compostela.

26 km aproximadamente.

O dia estava envolto numa neblina e antes de nos fazemos ao Caminho fomos dar uma volta pela Vila. Era cedo e estava ainda tudo muito deserto. Não chovia o que me lembro de ter sido para nós uma motivação extra além da que tínhamos por ser este o dia que menos quilómetros nos reservava. Os meus pés estavam efetivamente bastante melhores do que na noite anterior: havia mazelas e o cansaço muscular era realmente enorme mas as feridas estavam tratadas e era momento de nos pormos ao caminho. O meu joelho, que já tinha acusado algum cansaço, nesse dia não deixou de me fazer recordar o quanto aquela aventura o estava a cansar.
Saímos cedo de Negreira e, não sei se por ser já o último dia, pareceu-me que a paisagem não era tão densa como nos dias anteriores. Havia mais "civilização" e menos vegetação à nossa volta. Pudemos ver durante quase todo o caminho, toda a paisagem, a variadíssima e riquíssima paisagem galega em tons verdes que nem o verão faz desaparecer. Lembro-me de me sentar sobre uma ponte, a Ponte de Maceira e de aí tirar uma fotografia que há muitos anos está guardada no computador que desastradamente deixou de funcionar.
Lembro-me que o sol brilhava e que os quilómetros aproximavam-nos com mais celeridade do nosso destino. Acho que estávamos com tanta vontade de chegar que tínhamos medo que esse momento acontecesse e deixássemos para trás todos aqueles sentimentos que estavam inerentes ao Caminho.
No Monte do Gozo vimos Santiago ao longe, com o sol a iluminar o cinzento das casas e a imponente Catedral. Foi para lá que nos dirigimos para realizar o ritual característico de todos os peregrinos que chegam a Santiago.
Quando chegámos não entrámos imediatamente mas antes sentámo-nos no chão, tendo ali à nossa frente aquele fantástico testemunho de fé. Não sei bem em que pensávamos mas talvez no enorme orgulho que sentíamos por termos ultrapassado as adversidades do Caminho e estarmos ali, no nosso destino, como 4 dias antes nos tínhamos proposto. Dissemos algumas palavras de circunstância, um abraço de fraternal cumplicidade, uma fotografia para a posteridade e entrámos na Catedral.
Depois de realizar todo o ritual sentei-me num dos bancos da frente, olhei para Ele e sorri. Agradeci-Lhe ter-me dado a oportunidade de ter feito este Caminho sem consequências físicas mais graves do que as que poderia ter tido. Agradeci a experiência que 6 meses antes tinha começado. Agradeci a companhia daqueles que eram a minha família e que sem saberem fizeram parte de uma das viagens mais importantes que realizei até à data.

Abraçámo-nos uma vez mais, despedimo-nos e seguimos em direção às nossas casas mergulhados em pensamentos, em recordações. Chegámos diferentes, não tenho dúvidas em afirmar que o Caminhos nos modificou. A nós e aos que connosco se relacionam todos os dias.

sexta-feira, 18 de janeiro de 2013

Sobre o Caminho [iv]



Dia 3
Olveiroa-Negreira
33 km. Aproximadamente
 
A minha decisão de fazer o Caminho de Santiago além de ter sido de uma enorme irresponsabilidade devido à falta de preparação física, prendeu-se com objetivos que inicialmente estavam um pouco afastados da Fé que, segundo indicações escritas na credencial que acompanha o peregrino, é o único motivo que deve mover este a realizá-lo.
Durante a minha estadia em Santiago ouvi muitas vezes outros alunos falarem do Caminho. Vi centenas de vezes a Praça do Obradoiro repleta deles que, com uma última réstia de força subiam, mais animados, as escadas da Catedral. Admirava-os e o seu espírito de abnegação emocionava-me.
Como disse antes, inicialmente o espírito de aventura cativara-me de uma forma avassaladora e aceitei, literalmente de um dia para o outro, fazê-la na companhia daqueles que tinham sido a minha família durante aqueles 6 meses.
No entanto, inevitavelmente o Caminho aproxima-nos d´Ele. E sentimos a Sua presença discreta. Perguntamos se nos está a ouvir. Pedimos que a chuva pare ou que tenhamos força anímica para seguir em frente. Demorei algum tempo a conseguir escrever isto mas esta é a verdade e esta vertente religiosa revelou-se-me no terceiro dia de Caminho.
Despedimo-nos do Martin, da Gosia e da Danuta e a tristeza desta despedida, por tudo o que tinha significado para nós o Caminho até à altura e todos os outros que até dias antes tínhamos feito em conjunto, deixou-nos mergulhados em pensamentos e recordações. Saímos sem a sua presença e sem vontade de falar.
Poucos quilómetros mais à frente, a chuva voltou a aparecer, a memória do dia anterior voltou e dei por mim a rezar o terço. Não sei exatamente se rezei bem, como deve ser rezado e acompanhado. Sei que me lembrei das noites em que a avó Encarnação me ensinava, a mim e aos meus primos, e tentei reproduzir alguns desses ensinamentos. Rezava para a chuva parar. Sempre que ela nos dava tréguas em sorria e cheia de alento agradecia-Lhe.
Numa das ocasiões em que já estávamos a caminhar há uma hora debaixo de chuva parámos num pequeno (mesmo pequeno) café. Estava exausta e queria desistir. Disse-o aos meus companheiros mas os seus olhares ficaram em silêncio. Dirigi-me à empregada de balcão e perguntei-lhe a que horas passava o próximo autocarro para Santiago. Disse-me num tom desanimado de galego quase puro: "O único que existe saiu há 15 minutos." Sorri, considerando a ironia. Olhei para eles, pus a minha mochila às costas e segui viagem. Entendi, naquele momento, que só havia um sitio para ir, um caminho a seguir, uma decisão a tomar. Desta forma, pusemo-nos ao Caminho.
Chegámos a Negreira debaixo de chuva intensa. A mesma chuva que horas antes tinha começado a cair e que depois de tanto tempo batendo no meu corpo, ensopando-me fez-me, por momentos, alucinar. Durante uma etapa em que a floresta nos envolvia, virei-me para ver de onde vinha o barulho que tinha ouvido e "vi" um enorme cão com dentes afiados vir na minha direção. Estava a alucinar. Acredito que os leitores mais céticos tenham alguma dificuldade em acreditar, mas foi isto que eu vi. Lembro-me bem porque foi muito real, mesmo não tendo sido verdadeiramente real.
Em Negreira o albergue também estava cheio mas acomodámo-nos na sala/receção. Tomámos um bom duche e conseguimos sair para comprar algo para jantar. A média de idades dos peregrinos que ali estavam rondava os 40 anos. De certeza que nós, com os nossos 20/25 anos fizemos com que ela baixasse. Conhecemos pessoas de todo o mundo, peregrinos que estavam no seu 1000º quilómetro. Histórias de vida de empenho, entusiasmo e preserverância. Vidas que são autênticos Caminhos. Uma das histórias que ouvi e que normalmente conto aos meus alunos está relacionada com um australiano que há anos que andava a percorrer Caminhos por todos os continentes. Vinha sozinho e eu perguntei-lhe porquê. Ele disse-nos que meses antes tinha convidado alguns dos seus melhores amigos a juntarem-se a esta sua aventura. Na altura, referiu, uns 10 disseram logo que sim. Meses mais tarde, voltou a questioná-los sobre a sua disponibilidade e apenas uns 5/6 mostraram interesse, embora com alguma relutância porque não tinham preparação, tinham que programar as coisas com tempo e outras desculpas. Um mês antes os seus amigos tinham desistido de fazer a viagem, argumentando da melhor forma que podiam. E ele veio sozinho porque, como nos disse, se tivesse à espera de companhia não tinha saído da Austrália, não estaria no seu 1000º quilómetro e não teria tido a oportunidade de nos contar esta história. Invejei a força de vontade e ainda hoje recorro ao seu exemplo em diversos âmbitos da minha vida pessoal e profissional.
Nessa noite também conheci um homem que viria a ser determinante para o meu objetivo de terminar o Caminho. Não sei o seu nome, penso que não estabelecemos um diálogo de circunstância. Chegou-se perto de mim e perguntou-me, em espanhol, se eu estava bem. Disse-lhe que sim, embora tivesse algumas dores e bolhas nos pés, estava bem! Escondia os pés porque os tinha negros: as meias pretas, debaixo de chuva...já se sabe. Perguntou-me se os podia ver e eu, muito envergonhada, mostrei-lhos. "Precisa de ser tratada", disse-me, "Bem...isto se realmente quiser terminar o Caminho". Disse-lhe que não valia a pena porque no dia seguinte estaria em Santiago. Olhou para mim e disse-me com ar sério "se quiser chegar a Santiago tem de deixar que eu a ajude. Posso?" Com um sorriso, disse-lhe que sim. Tratou das minhas bolhas e deu-me um creme para massajar os pés. Pediu à vigilante para me colocar no quarto reservado às pessoas com deficiência motora mas eu recusei perentoriamente: não me ia afastar da animação típica dos albergues e da confraternização e não me ia deitar confortavelmente enquanto os meus companheiros estavam a dormir no chão. Ele era médico, disse-me depois, e talvez tenha sido também por sua causa que consegui chegar a Santiago no dia seguinte. Talvez...
Dormi com um conforto que até aí não tinha sentido: um conforto emocional e espiritual também. Dormi profundamente.
 
 

quinta-feira, 17 de janeiro de 2013

Sobre o Caminho [iii]

 
Dia 2.

Finisterra-Oliveiroa

31 km aproximadamente

 
O dia seguinte amanheceu com sol na bonita cidade de Finisterra. O burburinho típico dos que se levantam ainda de madrugada para seguir o seu caminho fez com que a noite tenha sido mais curta do que precisávamos. Dormimos nos nossos sacos-cama num hall perto dos outros quartos mas pareceu-nos um luxo, considerando a possibilidade de dormir ao relento. As noites na Galiza, mesmo em junho, eram frias.
Partimos em direção à praia e tivemos ainda tempo de tirar algumas fotos em grupo. Percebi mais tarde que o tempo usado para estas pequenas pausas tería sido útil noutro momento do Caminho. Percebo agora, volvidos 8 anos, que esse momento na praia foi o último de sentida descontração e genuína diversão em grupo.
O Caminho continuava à nossa frente e durante ainda alguns quilómetros pudemos ver o mar à nossa esquerda. Uma paisagem maravilhosa difícil de descrever por palavras: o azul do mar estendia-se pelo horizonte até não ter fim.
Antes de entrarmos pelas montanhas com destino a Oliveiroa, parámos em Cee para descansar e recuperar energias. Gentilmente alguns farmacêuticos, vendo o nosso estado de cansaço, ofereceram-nos pomadas para as tendinites e barras energéticas. Recomendaram-nos que ingeríssemos calorias, nomeadamente chocolate. Neste momento houve algum desconforto no grupo porque o Martin sugeriu desistir do Caminho. Estava cheio de dores e pensou seriamente em fazê-lo. Com algum entusiasmo e espírito de equipa tentámos demovê-lo dessa ideia e conseguimos, embora não por muitos mais quilómetros.
Tento descrever o que se passou a seguir e, ao mesmo tempo, esforçar-me para não me tornar repetitiva mas não é tarefa fácil. A partir de Cee a situação piorou: as dores acentuaram-se e os ânimos foram ficando resfriados, consequências de uma falta de preparação evidente para um percurso tão longo e intensivo como aquele que nos propusemos fazer.
Já em plena montanha, entendemos que não eram só os nossos ânimos que estavam resfriados, também o tempo começou a mudar e a ficar escuro e frio. Não tardámos a perceber que uma das situações mais caricaturada em postais, canecas e outros "recuerdos" galegos era realmente verdade, mesmo na época estival em que nos encontrávamos: o homem de gabardine numa tempestade hiperbolizada.
Faltavam aproximadamente 15 quilómetros para o nosso destino quando começou a chover torrencialmente. A chuva aparecera e nós não estávamos preparados para a sua visita. Aliás, ainda nesse dia estava a curar um escaldão de que fui alvo no dia anterior. Escusado será dizer que, se as dores eram muitas, nessa altura a nossa preocupação voltou-se para a situação de  estarmos sem qualquer tipo de proteção. Durante horas a chuva não teve piedade de nós e, algo que nos preocupava mais, o dia estava a fazer-se escuro. Também nessa altura, apercebemo-nos de que há alguns quilómetros que não víamos a concha (Vieira) que dava as indicações para o Caminho certo. Andávamos por entre a montanha com o sentimento de estar à deriva.
O poder da chuva é extraordinariamente demolidor. Não falo naquela chuva miudinha e durante um curto espaço de tempo que invade os cenários das comédias românticas. Falo daquela grossa e que durante horas, sem impermeável ou chapéu que nos valha, cai incessantemente sobre o corpo cansado e acelera a exaustão da mente. Dessa chuva, essa que mói e que tortura. Dessa não sinto saudades.

O estado de espírito geral não era animador mas nunca, em 32 anos de vida, senti tanto estímulo, carinho e amizade como naquele momento em que, sem força anímica, me deixei para o final da fila. Era no final da fila, longe dos olhares, que maldizíamos o fato de não encontrarmos a Vieira, o termos demorado mais tempo nas fotos, o não termos pensado nos impermeáveis ou nos chapéus-de-chuva. Era no final da fila que chorávamos. Eu chorei para logo a seguir sentir ao meu lado a Yustyna e a Danuta que me puseram a aprender os números em polaco: "jeden" dizia ela e eu com o meu polaco macarrónico, tentando imitá-la, repetia. A minha tentativa arrancou dos caminhantes cabisbaixos uma gargalhada geral. Ela continuou: “dwa” e eu também, bem como os sorrisos complacentes com a minha falta de aptidão para o polaco. Sorrisos cansados e calorosos.
Alguns minutos depois encontrámos a Vieira e seguimos mais motivados para o Albergue de Oliveiroa.
Quando lá chegámos, os beliches estavam cheios mas outros peregrinos, devidamente preparados ofereceram-nos as suas camas. Eles não souberam mas estou-lhes eternamente grata. A responsável pelo albergue fez-nos sopa quente ue comemos com uma enorme satisfação. Falámos um pouco sobre o dia seguinte e a possibilidade de alguns do grupo abandonarem o caminho e regressarem de autocarro a Santiago. Queríamos deixar essa decisão para o dia seguinte. O cansaço apoderou-se de nós e depois dos habituais estímulos e e palavras amigas, deitámo-nos. Neste momento não me consigo lembrar se tinha dores, mas lembro-me que psicologicamente me sentia profundamente cansada. Lembro-me de ter agradecido o estar ali.

 

terça-feira, 15 de maio de 2012

Sobre o Caminho [ii]


Percurso: Múxia-Santiago
Kilómetros: 120 (aproximadamente)
Dias estimados para a realização do percurso: quatro
"Caminhantes": Inês (Portugal); Gosia, Danusia, Madjek, Yustena (Polonia), Martín (Suiça) e Lenka (Repúblia Checa)

Múxia, 11 de junho de 2005

Dia1: Múxia-Finisterra

Na manhã do dia 11 de junho saimos de autocarro em direção a Muxia. Era de lá que iriamos sair com destino a Finisterra onde fariamos a primeira paragem destes quatro dias de Caminho. O grupo estava animado e muito entusiasmado com o percurso. Sentiamos estávamos a começar uma grande aventura. Sim, era isso que ingenuamente sentiamos quando deixamos a paisagem inspiradora e rochosa de Muxia.
Os primeiros quilómetros foram passados em animada excitação por estarmos juntos falávamos, parece-me agora, alto e estranhei muito que os restantes peregrinos que encontrámos no caminho permanecessem em silêncio mesmo indo em grupo.
O Caminho de Santiago é feito, na sua maioria, por estradas de terra batida com arbustos que nos escondem, pinhais, riachos ou pequenas ribeiras que tinhamos de atravessar não sem antes nos refrescarmos. Vi paisagens lindissimas por todo o interior da Galiza, ouvi os falares recônditos dos galegos, fui alvo da simpatia destas gentes humildes e trabalhadoras que têm fama de ser desconfiados mas que nos acolhem como se fôssemos uns dos seus.
Vislumbrámos Finisterra (o fim da terra) no final da tarde desse dia. Estávamos, escusado será dizer, exaustos e cheios de dores em tudo o que fossem articulações. Tinhamos já alguns "peregrinos" com aviso de tendinites e os últimos kilómetros do caminho desse dia foram já feitos com lágrimas nos olhos. Começávamos a dar-nos conta que talvez tivesse sido demasiado imprudente pormo-nos ao caminho sem a preparação física conveniente para este tipo de situações.
A lesão contraída anos antes no joelho deu sinais da sua existência a 10 km do albergue de Finisterra. Consegui suportar repativamente bem a dor e só desejava poder ter uma boa noite de sono para recuperar energias.
À chegada ao albergue fomos informados de que este estava cheio e que não íamos conseguir pernoitar nele. O cansaço apoderara-se de nós de uma forma que não nos permitia reclamar sequer. Ficámos sem reação. Estávamos inertes e nem falar conseguiamos, quanto mais raciocinar. Talvez o Madjek, o mais calmo e menos cansado do grupo, tenha ido falar com a senhora porque ele regressou com um sorriso, dizendo "Deixam-nos ficar aqui mas temos que dormir no chão." Era completamente irrelevante dormirmos no chão ou não e, movidos por um novo alento, entrámos no albergue. Não me lembro de ter jantado, mas sei que o duche me soube muito bem e sem dar conta caía num sono profundo.
A rede de albergues espalhada por todo o percurso do Caminho de Santiago é gratuita para todos os que comprovem ser peregrinos a pé, em bicicleta ou a cavalo através da credencial do peregrino que deve ter carimbados os símbolos das diversas regiões pelas quais fomos passando. Esse era o nosso passaporte para a entrada nos albergues.

Assim estava o dia um terminado. A nossa ideia inicial começava a mudar...

quarta-feira, 9 de maio de 2012

Sobre acreditar.

Há uns dias encontrei este excerto numa conhecida página de citações, pensamentos, poemas, provérbios. O que me chamou a atenção foi o seu título "cada dia é sempre diferente dos outros" porque no contexto do meu trabalho esse é um dos argumentos optimistas para a minha motivação profissional, aparentemente tão estranha para alguns que me rodeiam.
O mais curioso é que embora se refiram a contextos diferentes, há palavras que entre a minha motivação e ele [o texto] se interrelacionam: [deixar de] Aprender. Memória[s]. [deixar de] Acreditar.
Cada dia [dos meus] é sempre diferente dos outros porque não equaciono deixar de aprender, porque não penso voltar atrás e pedir explicações, porque em cada dia há respostas para encontrar, há situações para esclarecer, há um caminho a seguir, há memórias para recordar, lugares para conhecer, lições para aprender, momentos para passar, sorrisos para partilhar, pequenas sementes para regar, frutos para colher. Porque há, enfim, valores nos quais vale a pena acreditar.
Cada dia é sempre diferente dos outros porque é o meu dia, porque não terei oportunidade de o viver duas vezes mesmo quando, como diz o excerto "se faz aquilo que já se fez".

 
Cada Dia é Sempre Diferente dos Outros

Cada dia é sempre diferente dos outros, mesmo quando se faz aquilo que já se fez. Porque nós somos sempre diferentes todos os dias, estamos sempre a crescer e a saber cada vez mais, mesmo quando percebemos que aquilo em que acreditávamos não era certo e nos parece que voltámos atrás. Nunca voltamos atrás. Não se pode voltar atrás, não se pode deixar de crescer sempre, não se pode não aprender. Somos obrigados a isso todos os dias. Mesmo que, às vezes, esqueçamos muito daquilo que aprendemos antes. Mas, ainda assim, quando percebemos que esquecemos, lembramo-nos e, por isso, nunca é exactamente igual.
— Porquê, pai?
— Porque a memória não deixa que seja igual, mesmo que seja uma memória muito vaga, mesmo que seja só assim uma espécie de sensação muito vaga. É que a memória não é sempre aquilo que gostaríamos que fosse. Grande parte dos nossos problemas estão na memória volúvel que possuímos. Aquilo que é hoje uma verdade absoluta, amanhã pode não ter nenhum valor. Porque nos esquecemos, filho. Esquecemos muito daquilo que aprendemos. E cansamo-nos. E quando estamos cansados, deixamos de aprender. Queremos não aprender por vontade. Essa é a nossa maneira de resistir, mais ou menos, àquilo que nos custa entender. E aquilo que nos custa entender pode ter muitas formas, pode chegar de muitos lugares.
— Porquê, pai?
— Porque nos parece que é assim. Mas talvez não seja assim. Aquilo que nos custa entender é sempre uma surpresa que nos contradiz. Então, procuramos convencer-nos das mais diversas maneiras, encontramos as respostas mais elaboradas e incríveis para as perguntas mais simples. E acreditamos mesmo nelas, queremos mesmo acreditar nelas e somos capazes. Somos mesmo capazes. Não imaginas aquilo em que somos capazes de acreditar.
— Porquê, pai?
— Porque temos de sobreviver. Porque, à noite, a esta hora, temos de encontrar força para conseguirmos dormir, descansar, e temos de acreditar que no dia seguinte poderemos acordar na vida que quisemos, que desejámos. Temos de acreditar que poderemos acordar na vida que conseguimos construir e que essa vida tem valor, vale a pena. Muito mais difícil do que esse esforço é considerarmos que fomos incapazes, que não conseguimos melhor, que a culpa foi nossa, toda e exclusiva.


José Luís Peixoto, in 'Abraço'


sábado, 19 de setembro de 2009

Sobre a Mudança

Tenho-me referido a mim mesma como "um Ser-Humano insatisfeito por natureza". Não me parece que seja algo de extraordinário porque a insatisfação é uma característica que está inerente à condição do Ser-Humano.
Depois de quatro anos passados no "51", como carinhosamente foi sendo chamado o t3 onde, até ao final do mês viverei, decidi que estava na altura de mudar.
Neste espaço de excepcionais dimensões, senti-me verdadeiramente em casa. Nele moraram pessoas também elas excepcionais que tiveram para comigo uma simpatia extrema e uma amizade incondicional. Penso que foi recíproco!
Recordo-me dos amigos que se auto-convidavam para vir cozinhar cá a casa. Dos pequenos-almoços oferecidos depois de uma noite de copos na "Rua do Crime"; dos jantares de aniversário, dos lanches com o bolo de chocolate feito através de uma receita da net; da casa cheia em fim-de-semana do Moura Encantada; da sala que depressa de tornava no quartel-general do mesmo festival: cenário para filmagens, reuniões, "escritório".
Belos momentos, momentos INESquecíveis.
A Professora Doutora Maria de Lurdes Cabral, mulher de uma sensibilidade e inteligência fenomenais, numa das aulas destinadas à Didáctica das Línguas, fez referência à dificuldade que o Homem tem de mudar e de aceitar a mudança. Dizia-nos que o desconhecido é um obstáculo à mudança uma vez que temos a tendência para recear o que não conhecemos.
Neste momento em que estou "em mudanças", não deixo de sentir esse receio de quem parte para uma nova aventura sem mapa para se poder guiar convenientemente.
Na bagagem, extensa porque em quatro anos acumulamos, inevitavelmente, muitas "recordações", levo uma única certeza: esta mudança era premente.
É essencialmente isso que me motiva: saber e, sobre tudo, sentir que ela, mais tarde ou mais cedo, teria de acontecer.

Estou animada e feliz por não ter cedido ao comodismo mometário, sentimental e profissional.

Emmanuel Kant, filósofo alemão, diz que "Toda reforma interior e toda mudança para melhor dependem exclusivamente da aplicação do nosso próprio esforço."
Se assim é, não tenho dúvidas de que o que vier a partir de Outubro será, com certeza, melhor!