terça-feira, 2 de maio de 2017

Dia Mundial do Livro

Como em cada manhã, rodeada de um delicioso café com bebida de aveia e um pão de cereais com queijo creme, foi fácil encontrar o tema para mais uma entrada no meu moleskine. 
Nesse dia, 23 de abril, decidi brincar com alguns dos títulos de livros que me marcaram.

O resultado está expresso nas linhas que seguem: 

 Dia Mundial do Livro 


 O Principezinho encontrou-se com Siddharta, O Homem à procura de um sentido, num agradável passeio por A Cidade e as Serras. Por aí encontraram, também, D. Juan e A filha do Capitão que contemplavam, extasiados, o Retrato de Dorian Gray. Simultâneamente, algures neste mundo, O Homem de Constantinopla tornava-se Um Milionário em Lisboa. Também D. Quijote de la Mancha veio em busca de esse afamado povo de Os Lusíadas à procura de aventuras. E é então que, após conhecer a História de um caracol que descobriu a importância da lentidão, encontra-se inesperadamente com Os Maias. Nas Histórias para Contar Consigo, MUDE e arrisque Na Vida com Garra. Mesmo durante a Intempérie, procure o seu Pássaro da Alma porque dessa forma, seguramente, Vai Correr Tudo bem!

quinta-feira, 2 de abril de 2015

Sobre a ausência

Fazes-me falta. 

Fazes-me falta mesmo quando estás perto de mim.
Não te confesso mas procuro em ti tudo aquilo que já foste para mim. 
Tudo o que já me deste. Tudo o que no seu tempo não valorizei. 
Todos os elogios que calei.
Fazes-me falta. Porque já não és tu e eu também já não sou eu.
Fazes-me falta mesmo quando dizes que gostas de mim, que sou importante para ti.
Não te zangues comigo mas, nas noites em que os fantasmas me visitam, pergunto-me se realmente assim é. Ainda és genuinamente capaz?

Fazes-me falta mas não cales quando for imperioso que fales a Verdade.

Fazes-me falta mesmo e principalmente quando estás perto de mim.

quarta-feira, 7 de maio de 2014

Sobre a Amizade

Todos os momentos são bons para homenagear os amigos. É realmente difícil estabelecer uma rede de amigos estável e que estejam ao nosso lado "independentemente de". Não tenho muitos amigos mas creio que os tenho em número suficiente para saber reconhecê-los.
O texto que aparece a seguir é da autoria de Miguel Esteves Cardoso e tem o título de "Os Amigos Nunca são para as ocasiões."

 Obrigada aos meus amigos, mesmo para aqueles com quem não estou frequentemente ou aos que magoo.

Os amigos nunca são para as ocasiões. São para sempre. A ideia utilitária da amizade, como entreajuda, pronto-socorro mútuo, troca de favores, depósito de confiança, sociedade de desabafos, mete nojo. A amizade é puro prazer. Não se pode contaminar com favores e ajudas, leia-se dívidas. Pede-se, dá-se, recebe-se, esquece-se e não se fala mais nisso.

A decadência da amizade entre nós deve-se à instrumentalização que tem vindo a sofrer. Transformou-se numa espécie de maçonaria, uma central de cunhas, palavrinhas, cumplicidades e compadrios. É por isso que as amizades se fazem e desfazem como se fossem laços políticos ou comerciais. Se alguém «falta» ou «não corresponde», se não cumpre as obrigações contratuais, é logo condenado como «mau» amigo e sumariamente proscrito. Está tudo doido. Só uma miséria destas obriga a dizer o óbvio: os amigos são as pessoas de que nós gostamos e com quem estamos de vez em quando. Podemos nem sequer darmo-nos muito, ou bem, com elas. Ou gostar mais delas do que elas de nós. Não interessa. A amizade é um gosto egoísta, ou inevitabilidade, o caminho de um coração em roda-livre.

Os amigos têm de ser inúteis. Isto é, bastarem só por existir e, maravilhosamente, sobrarem-nos na alma só por quem e como são. O porquê, o onde e o quando não interessam. A amizade não tem ponto de partida, nem percurso, nem objectivo. É impossível lembrarmo-nos de como é que nos tornámos amigos de alguém ou pensarmos no futuro que vamos ter.
A glória da amizade é ser apenas presente. É por isso que dura para sempre; porque não contém expectativas nem planos nem ansiedade.


Miguel Esteves Cardoso, in 'Explicações de Português'

domingo, 4 de maio de 2014

Carta de [des]amor

Breve carta a um futuro ex.

                Amor,
                Se algum dia o meu olhar e a forma como te cativo e envolvo te fizerem sentir como se não houvesse outra além de mim, esse sentimento não passará uma doce ilusão. .
                A vontade de te fazer sentir especial, de te surpreender, de me entregar a ti incondicionalmente dará lugar, mais tarde ou mais cedo, a um comodismo e inércia, a uma insatisfação premente, a uma alienação do que te diz respeito.
                Com mais ou menos evidência não tardarás a considerar-me uma fraude: porque perdi a energia que te transmitia e em tempos te fascinou; porque já não te faço rir e já não rio; porque deixei de ter respostas para as tuas perguntas; porque já não faço perguntas.
                Um dia, mais tarde ou mais cedo, perceberás que não estou à altura, que mereces melhor, que precisas de mais.
                E eu vou dizer-te que te avisei.


                E avisei.

terça-feira, 15 de abril de 2014

Sobre Criar Laços

Há uns anos, quando me sentia incapaz de "criar laços", apareceu uma borboleta extraordinária na minha vida que me mostrou que sou capaz de o fazer. Num desses momentos escrevi o texto que aparece a seguir que lhe é originalmente dedicado. Passados 4 anos partilho-o aqui com o objetivo de fazer um elogio à [sua] amizade. Nestes 4 anos tenho conhecido pessoas extraordinárias com quem criei e estreitei laços e que me tornaram uma pessoa melhor, mais consciente e tolerante. É também a elas que vai dedicado este texto. 
Deixo apenas um alerta: o texto não pretende ser Literatura. O texto é a expressão de um sentimento e apenas isso, a verosimilhança no que diz respeito às questões biológicas/físicas não foram uma preocupação.


A Pantera e a Borboleta.

Para a Borboleta,
Não há um único dia que deseje que te vás embora do meu ombro.

Era uma vez uma pantera que, ao contrário das outras panteras da sua espécie, era cor-de-rosa. A pantera não gostava de se sentir diferente dos seus pares e isso fazia com que algumas vezes se afastasse deles e se tornasse menos tolerante à sua presença. Ela só queria, pensava frequentemente, ser igual aos outros.

Um dia, enquanto passeava num jardim de amendoeiras em flor escondida de todos e perdida nos seus pensamentos, encontrou uma borboleta pequenina que, acreditou naquele momento, era a mais bonita de todas as borboletas que vira até ao momento. A borboleta era colorida e as suas asas eram pequeninas e sensíveis mas muito definidas. Era uma daquelas borboletas que vem com a primavera e que aquece o coração gelado do frio do inverno.

A borboleta pousou no ombro da pantera e seguiram algum tempo assim. No entanto, como a pantera não estava habituada a que gostassem da sua companhia, ficou incomodada e disse-lhe:
- Tu és uma borboleta tão bonita e colorida devias estar estar junto das flores que nesta altura do ano anseiam pela tua presença. Eu sou só uma pantera cor-de-rosa não posso dar-te aquilo que as borboletas precisam.
A borboleta, olhando-a delicadamente, desse-lhe com uma voz doce como quem canta uma suave e doce melodia:
- Isso é o que se espera que as borboletas façam. As flores são lindíssimas e tornam qualquer jardim fantástico e agradável aos olhos de todos mas nesta altura do ano são demasiado presunçosas e dificilmente se consegue estar perto delas. Eu prefiro estar aqui e caminhar a teu lado.
Não disse nada. Apesar de incomodada com a situação de proximidade, algo que havia tempo que ninguém tentava, a pantera pensou que seria inútil tentar explicar à borboleta o seu incómodo porque esta parecia irredutível e decidida a acompanhá-la.
Passado algum temo, a borboleta perguntou:
- Eu afastei-me das flores porque nesta altura do ano são convencidas mas sei que regressarei porque sou uma borboleta e gosto da sua companhia e do seu perfume, porque elas me alimentam. Mas tu, pantera, tu caminhas sozinha. Porquê?
A pantera considerou que a pergunta da borboleta era desapropriada e inconveniente mas sentiu nesse momento um estranho conforto. Pensou para si própria que havia muito tempo que ninguém queria saber como se sentia. Na verdade, pensou novamente a pantera, talvez tenha sido ela que não tenha dado oportunidade que outros o fizessem.
A pantera esperou algum tempo e disse:

- Sou cor-de-rosa. Já alguma vez viste uma pantera cor-de-rosa?
- Não, nunca tinha visto, retorquiu a borboleta não parecendo muito interessada nesse pormenor.
A pantera voltou a dizer-lhe:
- Por isso caminho sozinha, porque não sou negra nem feroz como as outras panteras.
A borboleta algo confusa afirmou:
- Mas o que me dizes não faz sentido nenhum. Não és negra mas és cor-de-rosa, como as bochechas dos bebés ou, em certas ocasiões, o pôr-do-sol. Não és feroz mas és da cor do algodão doce. Eu gosto tanto de algodão doce!! Isso...recordas-me o algodão doce!
A borboleta voava agora diante da pantera que parecia não lhe prestar atenção. Não sabia exatamente o que dizer, nunca tinha visto as coisas por essa perspetiva. Talvez o ser diferente não seja algo tão negativo como ela própria tinha pensado.
A borboleta, que ainda não tinha terminado o seu raciocínio, disse:
- Olha para mim, eu sou assim como vês pequenina e imperfeita mas já fui igual a milhares de lagartas. Quando crescemos, nós as borboletas, tornamo-nos também únicas e diferentes de todas as outras.

Olhou para a pequena borboleta, para as suas cores e movimentos. As suas asas quase imperfeitas davam-lhe um desenho único. Pensou também que as borboletas sentiam o mesmo que ela. Nunca tinha visto duas borboletas iguais.Todas eram diferentes com as suas cores e asas imperfeitas.Sentiu-se aliviada e feliz por conhecer um ser tão pequenino e excecional como o que acabara de conhecer.

Disse depois:
- Sabes, fazes-me lembrar um arco-íris. Tu és como o arco-íris: és colorida e tornaste colorido o meu dia e o meu caminho.
Caminharam em silêncio e a borboleta tornou a pousar no ombro da pantera. Nenhuma das duas se cansava daquele silêncio, nenhuma das suas sabia para onde se dirigiam mas sabiam que queriam ficar juntas. Sentiam-se bem assim e isso, para a pantera e para a borboleta era a única coisa que interessava. 
Isso bastava-lhes a si e à sua felicidade.