quinta-feira, 13 de janeiro de 2011

Sobre a ilusão

Às vezes tenho a presunçosa ideia de que aos 30 anos já tenho alguma bagagem no que a vivências diz respeito. Penso, algumas vezes, que determinada experiência fez-me aprender e, por esse motivo, enriqueceu-me vivencialmente.

É curioso pensar nisto desta forma quando ainda hoje escrevi noutro lugar que o meu processo de aprendizagem era constante. É, pensará com toda a razão o leitor mais atento, uma incongruência. Daquelas incongruências que, em algum momento, fazem sentido. Daquelas que são difíceis de explicar.

Talvez neste momento esteja numa posição privilegiada para dizer que por muito que possamos viver, por muito intensas, adversas ou agradáveis possam ter sido as nossas experiências de vida, nunca aprendemos demasiado, nunca aprendemos tudo, numa prevemos as duas mil situações e combinação de situações que ainda podem acontecer connosco.

Eu, até há dois dias atrás, estava iludida pelo retrato colorido que costumo pintar do que me rodeia. Pela tolerância do ser-se o que se é e do ser-se como se é. Pelo respeito pelo trabalho de quem comigo partilha o mesmo espaço.

Eu, até há dois dias atrás, estava demasiado confiante nas experiências que tinha vivido e no quão importantes foram e nas imensas lições que retirei delas.


Eu hoje dei-me conta que não sei nada, não aprendi nada.

Ernesto Guevara de la Serna, no final da sua viagem pela América Latina diz qualquer coisa como: Eu já não sou eu, pelo menos não o eu que fui. Eu hoje acrescento Eu já não sou eu. Pelo menos não o eu que fui [ontem].


Parece que a
viagem ainda agora começou!

sábado, 8 de janeiro de 2011

Sobre o Amor Puro

Ontem a minha querida AML deixou um link na janela do msn. Eu estava offline e só hoje pude ver até onde me levava. O mais interessante no link não é exatamente o blog em si mas o texto que ela queria que eu conhecesse. O texto é de Miguel Esteves Cardoso, originalmente escrito no Jornal Expresso de 2005, se não estou equivocada, e tem como título "Elogio ao Amor". Transcrevo-o, sem mais palavras, em seguida.
"Quero fazer um elogio ao amor puro. parece-me que já ninguém se apaixona de verdade. Já ninguém quer viver um amor impossível. Já ninguém aceita amar sem uma razão. Hoje as pessoas apaixonam-se por uma questão de prática. Porque dá jeito. Por que são colegas e estão ali mesmo ao lado. Porque se dão bem e não se chateiam muito. Porque faz sentido. Porque é mais barato, por causa da casa. Por causa da cama. Por causa das cuecas e das calças e das contas da lavandaria.
Hoje em dia as pessoas fazem contratos pré-nupciais, discutem tudo de antemão, fazem planos e à mínima merdinha entram logo em "diálogo". O amor passou a ser passível de ser combinado. Os amantes tornaram-se sócios. Reunem-se, discutem problemas, tomam decisões. O amor transformou-se numa variante psico-sócio-bio-ecológica de camaradagem. A paixão, que devia ser desmedida é na medida do possível. O amor tornou-se numa questão prática. O resultado é que as pessoas, em vez de se apaixonarem de verdade, ficam "praticamente" apaixonadas.
Eu quero fazer o elogio do amor puro, do amor cego, do amor estúpido, do amor doente, do único amor verdadeiro que há, estou farto de conversas, farto de repreensões, farto de conveniências de serviço. Nunca vi namorados tão embrutecidos, tão cobardes e tão comodistas como os de hoje. Incapazes de um gesto largo, de correr um risco, de um rasgo de ousadia, são uma raça de telefoneiros e capangas de cantina, malta do "tá tudo bem, tudo bem", tomadores de bica, alcançadores de cxompromissos, bananoides, borra-botas, matadores do romance, romanticidas.
Já ninguém se apaixona? Já ninguém aceita a paixão pura, a saudade sem fim, a tristeza, o desiquilibrio, o medo, o curso, o amor, a doença que é como um cancro a comer-nos o coração e que nos canta no peito ao mesmo tempo? O amor é uma coisa, a vida é outra. O amor não é para ser uma ajudinha. Não é para ser o alívio, o repouso, o intervalo, a pancadinha nas costas, a pausa que refresca, o pronto-socorro da tortuosa estrada da vida, o nosso "dá lá um jeitinho sentimental". Odeio esta mania contemporânea por sopas e descanso. Odeio os novos casalinhos. Para onde quer que se olhe já não se vê romance, gritaria, maluquice, facada, abraços, flores. O amor fechou a loja. Foi trespassado ao pessoal da pantufa e da serenidade. Amor é amor. É essa beleza. É esse perigo. O nosso amor não é para nos compreender, não é para nos ajudar, não é para nos fazer felizes. Tanto pode como não pode. Tanto faz. É uma questão de azar. O nosso amor não é para nos amar, para nos levar de repente ao céu a tempo ainda de apanhar um bocadinho de inferno aberto. O amor é uma coisa, a vida é outra. A vida às vezes mata o amor. A "vidinha" é uma convivência assassina. O amor puro não é um meio, não é um fim, não é um princípio, não é um destino. O amor puro é uma condição. Tem tanto a ver com a vida de cada um como o clima. O amor não se percebe. Não dá para perceber. O amor é o estado de quem se sente. O amor é a nossa alma. É a nossa alma a desatar. A desatar a correr atrás do que não sabe, não apanha, não larga, não compreende. O amor é uma verdade. É por isso que a ilusão é necessária. A ilusão é bonita, não faz mal. Que se invente e minta e sonhe o que quiser. O amor é uma coisa, a vida é outra. A realidade pode matar, o amor é mais bonito que a vida. A vida que se lixe. Num momento, num olhar, o coração apanha-se para sempre. Ama-se alguém. Por muito longe, por muito difícil, por muito desesperadamente. O coração guarda o que se nos escapa das mãos. E durante o dia e durante a vida, quando não está lá quem se ama, não é ela que nos acompanha - é o nosso amor, o amor que se lhe tem. Nâo é para perceber. É sinal de amor puro não se perceber, amar e não se ter, querer e não guardar a esperança, doer sem ficar magoado, viver sozinho, triste mas mais acompanhado de quem vive feliz. Não se pode ceder. Não se pode resistir.
A vida é uma coisa, o amor é outra. A vida dura a vida inteira, o amor não. Só um mundo de amor pode durar a vida inteira. E valê-la Também."
Enquanto me deixava levar pelas palavras, recordei alguns episódios de amor puro que vivi ao longo destes 30 anos. Independentemente do desfecho que lhes/lhe dei/deram foram episódios que recordo com muita nostalgia. Não no sentido de querer que regressem mas no sentido em que naquele tempo eu fiz coisas extraordinárias porque acreditava nesse tal Amor Puro. Penso que é o que me falta :um motivo para voltar a acreditar nele.

domingo, 2 de janeiro de 2011

Sobre [uma] retrospetiva

Quando chegamos ao final de mais um ano é quase inevitável não nos determos algum tempo sobre o ano que termina. Eu, a mais comum das mulheres portuguesas, faco-o constantemente e portanto este final de ano não foi exceção.
Foi um ano cheio de agradáveis supresas. Foi um ano cheio de concertos e descobertas musicais. Foi um ano cheio de trabalho e espírito de sacrificio. Foi um ano cheio de amizade. Foi um ano cheio de momentos felizes partilhados. Foi um ano de inter e intraconhecimento. Foi um ano cheio de aventuras em terra e ar. Foi um ano cheio de solidariedade. Foi um ano com objetivos cumpridos e sonhos realizados. Nada disto faz do meu ano um ano especial para o leitor que pacientemente lê estas linhas. Nada disto pode parecer excecional aos seus olhos. Mas este ano, só porque o vivi. Só porque o partilhei com pessoas fantásticas que me tornam uma pessoa melhor todos os dias. Só porque foi o MEU ano, este ano foi sensacional. O leitor assíduo deste blog saberá que a mensagem otimista que passo do ano que agora findou não é novidade. Para o leitor que não conhece e que, por algum [bom] motivo vem a este espaço virtual, não deve duvidar destas animadas palavras. Elas existem porque fazem parte de mim, porque são a concretização do que eu sou e do que quero transmitir.
Aos leitores que estão habituados a ler estas palavras otimistas mas principalmente aos que não acreditam nelas nestes tempos de crise, desejo que em 2011 tenham, essencialmente, coragem para fugir ao habitual, ao mais fácil e cómodo. Que em 2011 concretizem o que até 2010 tinha ficado em plano no papel. Não precisa de ser um grande empreendimento ou feito aos olhos dos que vos rodeiam. Mas que seja um grande empreendimento pessoal, só vosso! Tenho a certeza que serão capazes de o fazer se se atreverem a isso.
Como dizia Antoine Saint-Exupery em O Principezinho: "É a importância que dás à tua rosa que a torna especial."
Sensacional 2011 para todos!

sexta-feira, 20 de agosto de 2010

Sobre Lisboa

...Cheira a Lisboa"
Há uns fins-de-semana atrás desloquei-me até Lisboa. Uma viagem/visita que já tinha prometido a mim mesma há algum tempo mas que por desculpa momentâneas: faltas de tempo ou disponibilidade, ainda não tinha concretizado. Desta vez, um impulso (ou talvez mais do que isso!) levou-me até à capital de Portugal e as expectativas foram amplamente superadas.
Os itinerários que a SC me tinha sugerido foram realizados e, por momentos, pareceu-me que a cidade estava bem próxima de mim.
A visita à cidade começou, como não poderia deixar de ser, pel`A Brasilleira onde, sentado numa apetecível esplanada, Fernando Pessoa saúda os que chegam no Metro na Baixa-Chiado pela saída do Largo do Camões.Aí, bebi um café e estudei o roteiro daquilo que eu tinha planeado que seria o meu primeiro dia.
Inspirada, dirigi-me até ao Largo do Camões, onde contemplei a estátua de um dos maiores e mais importantes escritores portugueses que dá o nome ao Largo. Subi até ao miradouro de Santa Catarina, também chamado de Adamastor, onde me debrucei sobre uma das sete colinas para logo vislumbrar outra do lado oposto. Ali ao lado um pequeno passeio pelas ruas, quase, desertas do Bairro Alto. Dos restaurantes vinha o burburinho das gentes e o som dos talheres nos pratos mas, cá fora, nem viv´alma.
Voltei ao Largo do Camões onde apanhei, como a SC me tinha dito, o 28 com destino à Graça. A viagem de eléctrico pelas ruas estreitas foi de um prazer extraordinário e, quando lá cheguei, após uma vista do miradouro da Graça, comecei a descida com destino ao ponto de partida inicial. Tive oportunidade de visitar a monumental Igreja de São Vicente de Fora e, atrás desta, não pude deixar de entrar no Panteão Nacional outro dos monumentos que me inspiraram patrioticamente.
Ao sair do Panteão deixei-me levar pelas músicas, o fado!, que vinham das janelas das pequenas e amontoadas casas e as suas coloridas varandas com flores, pelos falares altos das gentes que nas suas casas, ainda enfeitadas com cores dos santos populares, falavam com os vizinhos numa harmonia quase que desconcertante e sem que importasse quem passava. Perdi-me, literalmente, por Alfama : pelos cheiros e sons desta Lisboa Castiça.
Voltei a encontrar a Sé e o Miradouro de Santa Luzia e num instante estava já na Rua do Ouro que me levava, com passos cada vez mais lentos, até à Rua Augusta. Voltei aos Armazéns do Chiado para lanchar e, após recuperar forças e ânimo, passei pela Livraria Sá da Costa enquanto me dirigia para as Ruínas do Carmo/Museu Arqueológico. Para terminar a tarde, um passeio pelos Restauradores e pelo Rossio.
A noite do primeiro dia foi programada pelo AJB: uma noite muito bem passada num restaurante italiano à beira-rio, regada de um bom vinho e acompanhada de uma agradável conversa. A Ponte 25 de Abril, o rio Tejo e a lua fizeram-nos companhia até altas horas da noite.
Foi uma noite, com certeza, inesquecível por variadíssimos motivos que não cabe aqui esmiuçar. O segundo dia deste fim-de-semana foi, também repleto de emoções fortes: madruguei para me dirigir à afamada Feira da Ladra que desde tenra idade preencheu o meu imaginário. Foi uma experiência incrível que estava longe de imaginar (por muitas conjecturas que possa ter feito sobre ela).
Aí pude encontrar de tudo, mas literalmente tudo, e todo o tipo de gente também. Após me demorar por lá algum tempo voltei a descer a colina mas antes parei n´A Tuna onde tomei o meu pequeno-almoço e conversei com o simpático dono do café sobre a Selecção Nacional e a sua prestação no Mundial´10. Senti-me como se aquela fosse a minha rotina, como se aquela fosse a minha casa. Antes de chegar ao destino seguinte, um desvio para regressar ao Castelo e às ruas que o circundam : estreitas e intermináveis ruas que se embrenham umas nas outras e de onde vinham sons mais ou menos alternativos.
Uma passagem pela Casa dos Bicos, futura Fundação José Saramago, e uns passos mais à frente o deslumbrante Terreiro do Paço e, novamente, um passeio até à Rua Augusta.
A tarde de sábado esteve reservada à companhia do AJB que me levou ao Jogo de apresentação do Sport Lisboa e Benfica no Estádio da Luz. Trajados a rigor, com o cachecol da equipa "Eu sou Benfica", e depois de alguma ansiosa espera entrei no actual estádio (o AJB fez questão que entrasse em primeiro lugar) e foi uma sensação, mais uma, inesquecível. Foi importante ter estado na sua companhia porque o seu benfiquismo fez-me viver, ainda mais, aquele momento.
Após o jogo, e como estava uma noite muito agradável, fomos até a um dos meus espaços favoritos na Capital: Parque das Nações - Real República de Coimbra. Lá, inesperadamente, encontrámos alguns amigos e a conversa prolongou-se até de madrugada.
No domingo, terceiro e último dia do fim-de-semana, o AJB foi buscar-me e almoçámos, segundo promessa do dia anterior, em Setúbal: cidade onde atribuladamente nos conhecemos. Houve tempo, ainda, para nos encontrarmos com o Saxo, amigo comum das lides tunísticas, na esplanada da Pousada de Portugal no Forte de S. Filipe.
Depois das despedidas, o regresso a Faro com sabor a saudades e já nostálgica dos fabulosos momentos do fim-de-semana.

sexta-feira, 2 de julho de 2010

Sobre o "Vá para fora cá dentro"

Desde há uns anos atrás que o Turismo de Portugal adoptou o slogan de "Vá para fora cá dentro". Segundo noticias das últimas semanas há cada vez mais portugueses a levarem a sério este slogan (na lista dos primeiros motivos estão os de origem económica) e a usufruírem de férias em Portugal.
Eu, que não preciso de motivos para ficar e usufruir do que de bom tem o meu país, de quarta, dia 23 de Junho, a sábado, 26, tive oportunidade de participar num evento que transmite essencialmente esta ideia: ir para fora cá dentro. Talvez não seja exactamente esta ideia mas é-o noutra vertente: a de, mesmo ficando "cá dentro", frequentar um espaço onde identifique odores, sabores, artesanato e musicas do MEDITERRÂNEO.
Estou a falar do famigerado Festival MED, que este ano contou com a sua 7ª edição, organizado pela Câmara Municipal de Loulé e que conta com a participação de músicos do mundo merriterrâneo e não só.
Sendo um festival que pretende dar a conhecer músicas do mundo, não se resume a isso. É exactamente por isso que o Festival MED é, na minha humilde opinião, extraordinário: nas ruas da zona histórica da cidade entrelaçam-se culturas, tradições, artesanato, gastronomia e idiomas. É por isso que tem, ano após ano, atraído mais público (de todas as idades!) e se tem superado a si mesmo.
Este ano, desafiada uma vez mais pela SC, comprámos o bilhete semanal e vivemos o MED na sua plenitude! De mapa na mão e prioridades musicais definidas calcarreámos, sem descansar, cada rua, experimentámos sabores do Oriente e Medio-Oriente, deixámo-nos seduzir pelos sons do Mali, de Israel, da Nigéria, de França e surpreendemo-nos com os grupos "da casa".
No regresso a casa, renovavam-se expectativas para o dia seguinte e quando achávamos que já tínhamos visto tudo e já conhecíamos o recinto como a"palma das nossas mãos" eis que aparece uma rua por onde ainda não tínhamos passado, um grupo de música que não conhecíamos ou um sabor que ainda não tinhamos experimentado.
Foram quatro dias extraordinários, quatro dias vividos "cá dentro" mas que nos fez recordar o que de melhor acontece lá fora!
Obrigada aos que no MED me fizeram companhia e partilharam comigo mais esta experiência!! Obrigada SC por "alinhares" comigo nestas aventuras! ;)