sábado, 23 de fevereiro de 2013

Sobre o elogio aos heróis


Ao FF, PL e ND, para nunca deixem de ser heróis dentro mas principalmente fora das 4 linhas.
À JG pela companhia, discrição, generosidade e simpatia.
                Já aqui falei no meu gosto por desporto em geral e futebol em particular. Mais recentemente escrevi sobre a minha experiência como espetadora de futsal e consequente entusiasmo em relação à modalidade.
                Descrevi nesse texto a minha paixão futebolística, a minha incursão pelo mundo do desporto e o entusiasmo que a ida ao jogo de futsal tinha despertado em mim. Antes desses anos (com 13-17 anos) via a irmã mais velha da minha mãe, que na altura vivia connosco, a ouvir o relato e a tirar a ficha técnica (cartões vermelhos, amarelos, golos, faltas…) dos jogos do Sport Lisboa e Benfica, único clube pelo qual se sofria lá em casa (e único pelo qual ainda sofremos!).  Acho que lhe devo a ela o gosto em tenra idade por esse desporto e por aquela que, nesses tempos, eu diria que seria a minha profissão: jornalista desportiva. Não me lembro de querer ter sido aquelas profissões que normalmente as crianças tendem a querer ser. Advogada, ingressão na vida militar e jornalista desportiva encabeçavam as minhas preferências profissionais.
                Como vim a tornar-me professora isso fica para outro momento mas a verdade é que esta profissão tem-me dado a oportunidade, e o privilégio, de conhecer adolescentes extraordinários. Nunca dou muita importância aos comentários generalizados sobre os «adolescentes». No meu trabalho respeito-os, motivo-os, incentivo-os, exijo deles, chateio-me com eles, ensino-os, educo-os, rio-me com eles, partilho, entristeço-me e entusiasmo-me com as suas peculiares características.
                Por vezes, embora comigo não aconteça de uma forma frequente, podemos acompanhar as suas atividades extracurriculares e ver como atuam fora das quatro paredes da sala de aula: como se intimidam ou exteriorizam os seus sentimentos em relação a mim, como são responsáveis, esforçados (ainda mais!), cumpridores, dedicados e ambiciosos. Consigo de tal forma interiorizar esse contexto externo à minha profissão que muito depressa dou por mim a torcer por eles, a roer unhas e a soltar um sonoro “Gooooolooo” seguido de um aplauso. Dou por mim a sentir orgulho e a partilhá-lo também desta forma.
                A eles, aos heróis deste dia: obrigada por me convidarem para os vossos jogos sempre com enorme entusiasmo, por se sentarem perto de mim e me fazerem sentir “em casa”, a vocês desejo que continuem a brilhar tanto fora das 4 linhas como dentro delas.
                A outra estrelinha que hoje também esteve presente não joga futebol mas brilha muito e faz os outros brilharem! A ela agradeço a conversa descontraída, a sua simplicidade, amabilidade e espírito altruísta: uma futura (ainda mais do que já é!) grande mulher!

P.s: Espero que eles tenham paciência para ler este texto até ao fim!!

domingo, 27 de janeiro de 2013

Sobre o Amor!

Já me aconteceu por mais do que uma vez, e de certeza que ao leitor também, saber de um inicio de namoro e/ou casamento entre duas pessoas que, na minha genuína e objetiva apreciação, não faz sentido nenhum e que "Não têm nada a ver um com o outro", apressamo-nos a referir.  Lembramos, tocadas por uma ponta de ciúme com a felicidade alheia, que dessa forma "só se estraga uma casa".
Considerações empíricas à parte, a verdade é que há coisas que não conseguimos explicar. Estou a lembrar-me de alguns provérbios que transmitem essa ideia de que os que estão apaixonados encontram sempre todas as razões e mais uma para esse sentimento. Razões que não se prendem com o aspeto físico ou psicológico, relações pessoais ou profissionais. São essas razões, as que não se definem ou não se consegue explicar que são verdadeiramente Razões.
Aos verdadeiros apaixonados e aos que por todas as razões e mais uma se amam, segue este texto fantástico [mais um!] de Joaquim Pessoa:

"Amo-te Por Todas as Razões e Mais Uma
Por todas as razões e mais uma. Esta é a resposta que costumo dar-te quando me perguntas por que razão te amo. Porque nunca existe apenas uma razão para amar alguém. Porque não pode haver nem há só uma razão para te amar.
Amo-te porque me fascinas e porque me libertas e porque fazes sentir-me bem. E porque me surpreendes e porque me sufocas e porque enches a minha alma de mar e o meu espírito de sol e o meu corpo de fadiga. E porque me confundes e porque me enfureces e porque me iluminas e porque me deslumbras.
Amo-te porque quero amar-te e porque tenho necessidade de te amar e porque amar-te é uma aventura. Amo-te porque sim mas também porque não e, quem sabe, porque talvez. E por todas as razões que sei e pelas que não sei e por aquelas que nunca virei a conhecer. E porque te conheço e porque me conheço. E porque te adivinho. Estas são todas as razões.
Mas há mais uma: porque não pode existir outra como tu."

Joaquim Pessoa, in 'Ano Comum'

sábado, 26 de janeiro de 2013

Sobre a Paixão!

Não sei em relação aos outros professores mas há um determinado momento da aula/ano letivo em que a pergunta aparece por interesse e/ou curiosidade: "Sempre quis ser professora?", perguntam-me a cada ano que passa os meus alunos. Este ano ainda não me foi colocada mas hoje pensei nela porque esta pergunta, normalmente, desilude o meu curioso auditório.
Não, nunca quis verdadeiramente ser professora. Lembro-me também de brincar que era professora, mas não me lembro de o querer efetivamente ser. A únicas duas profissões que me recordo bastante bem de querer ter sido foram a de advogada e a de jornalista [desportiva].
Esta minha revelação acaba sempre por suscitar algum alvoroço nos meus alunos e quando lhes digo que sou adepta de um bom jogo de futebol e que inclusivamente sigo a atualidade futebolística e desportiva, não conseguem olhar-me sem uma expressão incrédula.
Desde os meus 14/15 anos que o Desporto é uma paixão. Desde a mesma altura comecei a comprar frequentemente o jornal A Bola, a reparar nas fichas técnicas dos jogos, a comprar livros com as regras de futebol e de outras modalidades. Gostava de desporto em geral e cheguei mesmo a praticar Basquetebol e Futebol no âmbito do programa Desporto Escolar. Quando fui para a Escola Secundária fui-me inserindo no grupo dos rapazes da turma e não havia uma única segunda-feira que não nos reuníssemos no intervalo grande para conversar sobre jogos da jornada ou outros assuntos desportivos. Acabei por me tornar secretária da equipa masculina da minha turma e não perdia um jogo do famoso inter-turmas. Na altura ambicionava ser como a Cecília Carmo, uma das primeiras mulheres a apresentar programas desportivos.
Os anos passaram e eu cresci e comigo cresceram novos  interesses: literariamente lembro-me de gostar de ler tudo e mais alguma coisa. devorava livros sobre questões mais espirituais como Paulo Coelho, Kahil Gibran, li imensos clássicos e adorava escrever: escrevia essencialmente histórias que aconteciam nas férias, escrevia cartas às minhas amigas com questões existenciais, escrevia muitas cartas!
Depois de estar algum tempo adormecida, esta minha paixão pelo futebol voltou a ganhar novos contornos há sensivelmente 4 anos. Confesso que de uma forma muito mais moderada do que anteriormente, mas não deixa de existir!
Hoje, a convite de uns alunos que sabem do meu gosto por futebol, fui ver pela primeira vez um jogo de futsal. Fiquei completamente fascinada pelo ritmo de jogo extenuante para o jogador, mas completamente contagiante para o espetador. Já há muito tempo que não via um espetáculo ao vivo e saí do pavilhão com vontade de regressar àquela época dos comentários à segunda-feira, às aulas de "temática livre" em que a modalidade escolhida era sempre a mesma: futebol... Fiquei tão entusiasmada quanto nostálgica.
 
Obrigada, obrigada, obrigada!
 
 
 
 

sábado, 19 de janeiro de 2013

Sobre o Caminho: Considerações Finais


As repercussões físicas e anímicas desta viagem ainda hoje se fazem notar. Fisicamente, estive um mês com dores musculares. Os meus pés e joelhos nunca mais foram os mesmos e embora continue a fazer as minhas caminhadas de fim de semana e a praticar desporto, "eles" chamam-me à atenção quando o esforço é demasiado.
Não é possível descrever o alcance desta viagem na minha vida. Meses mais tarde escrevi a uma amiga a contar algumas coisas e disse-lhe algo semelhante a isto: "Não vais acreditar mas fiz o Caminho de Santiago. Mais tarde conto-te os detalhes desta extraordinária viagem mas, por agora, digo-te que este Caminho que há meses deixei e que me parece ter sido ontem que entrei no Obradoiro, é a metáfora de uma vida." Uma vida, digo hoje, com lágrimas e obstáculos para ultrapassar, uma vida em que os amigos fazem realmente toda a diferença. Uma vida em que a adversidade da chuva miudinha pode levar-nos tanto ao desespero como fazer com que esta se  torne um motivo para caminhar mais depressa. O Caminho (ou será a vida?) faz-nos pensar com cautela, seguir em frente quando não há forma de voltar para trás. Mesmo quando a floresta se adensava sobre nós havia uma beleza nessa imensidão que nos fazia esquecer o medo e a incerteza. Depressa aparecia o riacho para nos refrescarmos ou um galego simpático que nos oferecia abrigo da chuva que gentilmente recusávamos porque não podíamos perder de vista o nosso objetivo, mesmo que nos apetecesse parar, mais hora menos hora, com mais ou menos chuva, teríamos que lá chegar.
O Caminho fez-me reencontrar com os meus verdadeiros valores através de uma lição de e para a vida.

Eu encontrei-me no Caminho e, sem poder voltar para trás, segui em frente. Dessa vez e em todas as outras.

Sobre o Caminho [v]


Dia 4.

Negreira - Santiago de Compostela.

26 km aproximadamente.

O dia estava envolto numa neblina e antes de nos fazemos ao Caminho fomos dar uma volta pela Vila. Era cedo e estava ainda tudo muito deserto. Não chovia o que me lembro de ter sido para nós uma motivação extra além da que tínhamos por ser este o dia que menos quilómetros nos reservava. Os meus pés estavam efetivamente bastante melhores do que na noite anterior: havia mazelas e o cansaço muscular era realmente enorme mas as feridas estavam tratadas e era momento de nos pormos ao caminho. O meu joelho, que já tinha acusado algum cansaço, nesse dia não deixou de me fazer recordar o quanto aquela aventura o estava a cansar.
Saímos cedo de Negreira e, não sei se por ser já o último dia, pareceu-me que a paisagem não era tão densa como nos dias anteriores. Havia mais "civilização" e menos vegetação à nossa volta. Pudemos ver durante quase todo o caminho, toda a paisagem, a variadíssima e riquíssima paisagem galega em tons verdes que nem o verão faz desaparecer. Lembro-me de me sentar sobre uma ponte, a Ponte de Maceira e de aí tirar uma fotografia que há muitos anos está guardada no computador que desastradamente deixou de funcionar.
Lembro-me que o sol brilhava e que os quilómetros aproximavam-nos com mais celeridade do nosso destino. Acho que estávamos com tanta vontade de chegar que tínhamos medo que esse momento acontecesse e deixássemos para trás todos aqueles sentimentos que estavam inerentes ao Caminho.
No Monte do Gozo vimos Santiago ao longe, com o sol a iluminar o cinzento das casas e a imponente Catedral. Foi para lá que nos dirigimos para realizar o ritual característico de todos os peregrinos que chegam a Santiago.
Quando chegámos não entrámos imediatamente mas antes sentámo-nos no chão, tendo ali à nossa frente aquele fantástico testemunho de fé. Não sei bem em que pensávamos mas talvez no enorme orgulho que sentíamos por termos ultrapassado as adversidades do Caminho e estarmos ali, no nosso destino, como 4 dias antes nos tínhamos proposto. Dissemos algumas palavras de circunstância, um abraço de fraternal cumplicidade, uma fotografia para a posteridade e entrámos na Catedral.
Depois de realizar todo o ritual sentei-me num dos bancos da frente, olhei para Ele e sorri. Agradeci-Lhe ter-me dado a oportunidade de ter feito este Caminho sem consequências físicas mais graves do que as que poderia ter tido. Agradeci a experiência que 6 meses antes tinha começado. Agradeci a companhia daqueles que eram a minha família e que sem saberem fizeram parte de uma das viagens mais importantes que realizei até à data.

Abraçámo-nos uma vez mais, despedimo-nos e seguimos em direção às nossas casas mergulhados em pensamentos, em recordações. Chegámos diferentes, não tenho dúvidas em afirmar que o Caminhos nos modificou. A nós e aos que connosco se relacionam todos os dias.